Fuga ou esquiva: indisciplina pode esconder dificuldades de aprendizagem


Indisciplina pode ser uma maneira de tentar esconder problemas na aprendizagem.


Quando nos sentimos incomodados com alguma coisa ou situação e não conseguimos eliminá-la, procuramos ou criamos estratégias para fugir ou para evitá-la.

Para evitarem ser rotulados e apontados como “burro”, “lerdo”, “analfabeto”, muitos alunos se escondem detrás de comportamentos agressivos ou de indisciplina.


Ser bagunceiro, aquele que desafia o professor, é muitas vezes motivo de destaque entre os colegas da turma. Além disso, o professor, com receio de provocar uma situação de conflito, evita exigir do aluno que ele responda alguma questão ou leia um texto em público. Assim, o aluno escapa de uma situação onde ele manifestaria sua dificuldade, ou seu “não saber”.


Ainda que ambos os rótulos tenham uma carga negativa, para eles, ser chamado de “bagunceiro” ou “malcriado” é menos danoso do que ser apontado como o aluno burro que não sabe de nada.

Veja os exemplos a seguir:

Exemplo 1
          Na escola, eu entro na sala de aula e sento. A gente não tem lugar fixo na sala, cada um pode sentar onde quiser. Eu sento na mesma carteira todo dia, no fundo, na última fila, perto da porta. Não falo nada de nada. O professor não fala nada comigo, agora. No primeiro dia ele falou:
      — Turma, abram o livro na página 122, por favor.
     Não me mexi. Ele disse:
     — Clarice, eu disse para abrir o livro na página 122.
     E eu disse:
     — Filho da puta, não sô surda!
     A turma toda caiu na gargalhada. Ele ficou vermelho. Bateu a mão com força no livro e disse:
     — Tente ter um pouco de disciplina.
     Olhei pra ele e disse:
     — Eu também sei bater. Cê quer bater? — Aí peguei meu livro e bati na mesa com força. A turma riu mais um pouco.
     Ele disse:
     — Clarice, eu agradeceria se saísse da sala, AGORA!
     E eu disse:
     — Não vô pra porra de lugar nenhum até a campainha tocar. Vim aqui pra aprender matemática e você vai me ensinar. — Ele parecia uma cachorra que acabou de ser atropelada por um trem. Não sabia o que fazer. Ele tentou recuperar a pose, bancar o maneiro, disse:
     — Bom, se quer aprender, acalme-se.
     Falei:
     — Eu tô calma.
     O rosto dele tava vermelho, ele tava tremendo. Eu dei pra trás. Ganhei a briga. Acho. Eu não queria prejudicar ele nem deixar ele sem graça daquele jeito, sabe. Mas não podia deixar ele saber, ninguém saber, que a página 122 era igual à página 152, 22, 3, 6, 5 — todas as página era igual pra mim.

O trecho acima foi retirado do livro Preciosa (1996), da autora Sapphire, publicado no Brasil pela editora Record. O livro virou filme em 2009, e levou dois prêmios no Oscar daquele ano.

O comportamento da personagem Preciosa, ou Clarice, descrito no trecho acima é um ótimo exemplo para ilustrar nosso tema. Clarice tinha grandes dificuldades na leitura e escrita, e quando o professor solicitou que os alunos abrissem na página 122, ela não se mexeu, pois não sabia identificar a página.

Quando foi interpelada pelo professor, ela respondeu com agressividade. O motivo de seu comportamento é esclarecido pela própria personagem, que tem consciência do que está fazendo: Eu não queria prejudicar ele nem deixar ele sem graça daquele jeito, sabe. Mas não podia deixar ele saber, ninguém saber, que a página 122 era igual à página 152, 22, 3, 6, 5 — todas as página era igual pra mim.”

Clarice não queria demonstrar para o professor nem para a turma que não sabia ler, e ataca verbalmente o professor para se esquivar da situação.

O resultado de seu comportamento também é exposto por Clarice no primeiro parágrafo: O professor não fala nada comigo, agora. No primeiro dia ele falou (…)”.Ou seja, para evitar a situação de conflito que ocorreu no primeiro dia, o professor não mais se dirigiu a Clarice.


Além disso, outras frases mostram a reação dos colegas de turma, valorizando o comportamento de Clarice, durante o episódio: “E eu disse: — Filho da puta, não sô surda! — A turma toda caiu na gargalhada. (…) Aí peguei meu livro e bati na mesa com força. A turma riu mais um pouco”.

Exemplo 2





A cena acima é um trecho do filme indiano Como estrelas na Terra (2007). O personagem Ishaan está numa difícil situação em que foi requisitado pela professora a ler uma sentença.

Diante da dificuldade de leitura, da hostilidade da professora e da gozação dos colegas de turma, a saída de Ishaan para se esquivar é debochar da situação, desafiando a professora e gerando risada entre os colegas.


Obviamente, nem todo ato de indisciplina tem a função de acobertar uma dificuldade de aprendizagem. É função do educador saber distinguir esses casos, identificando as causas do comportamento da criança para que a intervenção possa ser realizada de forma apropriada. Caso contrário, ele continuará insistindo em corrigir a indisciplina do aluno, sem sucesso, enquanto o maior problema continua intocado.



Para saber mais:

VIECILI, Juliane; MEDEIROS, José Gonçalves. A coerção e suas implicações na relação professor-aluno. PsicoUSF, 2002.

PEREIRA, MARINOTTI e LUNA. O compromisso do professor com a aprendizagem do aluno: contribuições da análise do comportamento. In: HÜBNER e MARINOTTI (Org.). Análise do comportamento para a educação: contribuições recentes. Santo André: Esetec, 2004. 

FEITOSA, F.; PRETTE, Z.; LOUREIRO, S. Acuracidade do professor na identificação de alunos com dificuldade de aprendizagem. Temas em psicologia, 2007.