O impacto do TDAH no contexto educacional

O Transtorno do Déficit de Atenção/Hiperatividade pode impactar negativamente as diversas atividades que a pessoa realiza ao longo do dia, seja na escola, no trabalho ou mesmo no espaço doméstico.

A avaliação dos sintomas bem como das dificuldades vivenciadas por esses indivíduos é importante para um correto diagnóstico e tratamento. Tendo isso em vista, as pesquisadoras Ana Paula de Oliveira e Elizabeth do Nascimento, especialistas em avaliação psicológica, desenvolvem instrumentos cujo objetivo é explorar as consequências funcionais relacionadas ao transtorno.


As autoras escreveram um texto exclusivo para a página PsicoEdu, onde abordam as consequências do transtorno em sala de aula, da educação básica à graduação, e a importância do professor no diagnóstico e tratamento.

Acompanhe o texto abaixo!

  


Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade/Impulsividade:
Seu impacto no contexto educacional


Por
Ana Paula Assis de Oliveira

Elizabeth do Nascimento


O TDAH é um dos transtornos psiquiátricos mais bem estudados no mundo. Apesar da ampla divulgação, ainda há muito que se esclarecer sobre esse transtorno. Um conhecimento superficial pode passar a impressão de que o TDAH quase não impacta negativamente a vida de quem o tem. Contudo, na maioria dos casos, não é o que acontece. Os seus sintomas fazem com que a pessoa tenha dificuldades em responder satisfatoriamente demandas do dia a dia em várias áreas da vida, dentre elas, a educação.

Vamos entender melhor os impactos desse transtorno no contexto educacional.

Todos sabemos que a educação exerce um papel extremamente relevante no processo de desenvolvimento humano. As experiências positivas no ambiente educacional geram sentimentos de competência, permitem a aquisição de conhecimentos, o desenvolvimento de habilidades sociais, ampliam as possibilidades de escolha profissional e, embora não garantem, contribuem de forma considerável para o sucesso profissional.

Estar no ambiente escolar implica em atender várias demandas que envolvem o processo de aprendizagem, a avaliação formal dos conhecimentos adquiridos, o cumprimento de tarefas, o seguimento de regras disciplinares e as interações com pares, professores e demais funcionários. Para tal, é importante que muitas habilidades, como as descritas a seguir, funcionem adequadamente.

Uma pessoa em ambiente educacional necessita aprender a controlar os próprios impulsos; a se concentrar; a regular a própria motivação diante de um estímulo entediante ou de um reforço distante no tempo; a planejar ações; a tomar decisões complexas considerando as consequências de curto, médio e longo prazos.

Ademais, são exigidas funções complexas como mudar o comportamento ao detectar que este já não é mais apropriado; monitorar-se; administrar o tempo; sustentar determinadas informações na mente enquanto realiza simultaneamente outra atividade e regular as emoções nas interações sociais.

Uma pessoa com TDAH apresenta déficits nessas funções mentais e por isso, o comprometimento verificado no desempenho escolar. Especificamente no contexto educacional, tais déficits podem se revelar em uma ampla gama de comportamentos.

Citamos aqui comportamentos típicos: dificuldades em terminar atividades de sala de aula, estabelecer uma rotina de estudo, trabalhar de forma autônoma, permanecer em fila e interromper um comportamento inadequado.

Os déficits também podem ser observados por meio...

  • da mudança de uma atividade incompleta para outra;
  • da distração com barulhos em sala de aula;
  • da evitação de tarefas consideradas desinteressantes ou que necessitam de muito esforço mental;
  • da falta de atenção durante as explicações do professor; do pular questões;
  • da confusão dos sinais nas operações matemáticas; da desorganização com pertences;
  • da perda de objetos escolares como tesoura, borracha, caneta;
  • do esquecimento da entrega de trabalhos e da realização dos deveres de casa;
  • da busca frequente por um motivo para se levantar ou para sair da sala;
  • da conversa excessiva no decorrer das aulas;
  • da rápida execução das atividades e sem o empenho necessário para se livrar delas;
  • da recusa da tarefa só por considerá-la trabalhosa; da perturbação da aula com gracinhas e/ou barulhos;
  • da realização das atividades sem ler devidamente as instruções;
  • de um desempenho muito bom em um tema que lhe desperta bastante interesse e um rendimento a desejar quanto o assunto não lhe interessa;
  • da interrupção frequente nas falas dos colegas e na explicação do professor e
  • na lentidão para começar a fazer o que precisa ser feito, com a possibilidade de passar toda a aula sem realizar nada do que foi solicitado.

Essa lista de comportamentos oferece uma noção de como o TDAH se manifesta no contexto escolar e de quanto prejuízo ele pode gerar!



Vale lembrar que o TDAH é um transtorno bastante heterogêneo, quer dizer, nem todos apresentam os mesmos sintomas e nem apresentam na mesma intensidade. E não basta apenas a presença dos sintomas para o diagnóstico do TDAH, outros critérios precisam ser atendidos. Além disso, é preciso destacar que esses sintomas podem resultar de outras causas que não o TDAH. Eles podem ser o reflexo de problemas familiares, de adaptação no contexto escolar ou de outro transtorno psiquiátrico. Por isso, a importância de uma avaliação profissional quando esses forem detectados.

As dificuldades enfrentadas pelas pessoas com TDAH no contexto escolar não é uma questão de má vontade, mas sim de sintomas que resultam de alterações estruturais e funcionais de determinadas regiões cerebrais.

Diversos estudos mostram que pacientes com TDAH atingem um menor nível educacional, tiram notas mais baixas, apresentam mais reprovações e necessidade de reforço escolar ou outra forma de suporte adicional (ver Biederman et al., 2006).

Na graduação, verifica-se redução na qualidade dos trabalhos, notas insatisfatórias, abandono de cursos e/ou disciplinas. Além disso, os relacionamentos interpessoais nesse contexto também são fonte de conflitos (ver Barkley, et al., 2013)

Com toda essa vivência de prejuízos é importante que as crianças, adolescentes e adultos recebam o diagnóstico e tratamento adequados para garantir uma melhor qualidade de vida. O(a) professor(a) tem um papel muito importante nessa questão. Ele tanto participa do processo de diagnóstico quanto de tratamento. No primeiro caso, a sua atuação se dá através da observação de possíveis sintomas no aluno e o encaminhamento para avaliação. E no segundo, por meio da adoção de estratégias em sala de aula que favoreçam o aprendizado e o manejo do comportamento do aluno com TDAH. Sabemos o quanto é desafiador para o professor lidar com o aluno que possui esse transtorno, o que poderemos abordar em outro artigo.

É muito importante que se estabeleça o diálogo próximo entre a família, os profissionais da educação e da saúde para se planejar estratégias de intervenção específicas para o aluno com TDAH. Deste modo, o professor poderá se sentir amparado e o aluno poderá receber uma intervenção de qualidade em prol do desenvolvimento do potencial cognitivo e social.



Veja também: +15 Dicas: Como lidar com alunos hiperativos em sala de aula



Para saber mais:

Barkley, Murphy e Fischer. TDAH em adultos: o que a ciência diz. São Paulo: Roca, 2013.

NASCIMENTO e OLIVEIRA. EPF-TDAH: Escala de Prejuízos Funcionais. (Ver material)

Biederman et al. Functional impairments in adults with self-reports of diagnosed ADHD: a controlled study of 1001 adults in the community. Journal of Clinical Psychiatry, 2006.

Associação Brasileira do Déficit de Atenção. TDAH - Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade - Uma conversa com educadores (Ver  texto).