Culpa e Perdão – Crianças até 4 anos precisam de “pistas” para identificar arrependimento do transgressor


por Eduardo de Rezende

Relações amigáveis e cooperativas são muito importantes para conquista de objetivos individuais ou coletivos, e nós humanos, dentro de nosso grupo social, confiamos muito em nossos relacionamentos cooperativos para nossa sobrevivência e bem-estar. Assim, quando alguma transgressão ocorre e prejudica nossos relacionamentos, é muito importante que a gente conserte essas relações para continuarmos nos beneficiando da vida em grupo e da cooperação.

Mas, como consertamos nossas relações rompidas?

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Um elemento chave para a reparação de uma relação é a expressão de culpa e remorso pelo transgressor. No entanto, a expressão de culpa pelo transgressor é apenas parte do processo de reparação. A outra parte é o perdão da vítima. O perdão restabelece os sentimentos positivos da vítima em relação ao transgressor, promove a reconciliação e permite que os transgressores voltem a estabelecer relações mutuamente benéficas, ajudando assim a manter a cooperação.

Logo, para haver reparação de relações rompidas é preciso haver, do lado do transgressor, culpa ou arrependimento e, do lado da vítima, perdão.

Pesquisas em psicologia do desenvolvimento já mostraram que até mesmo crianças pequenas sentem culpa após uma transgressão e tentam reparar os danos que causaram tentando restaurar o relacionamento danificado. No entanto, sabemos muito pouco sobre quando o comportamento de perdoar aparece nas crianças.

Em pesquisas com adultos, pesquisadores identificaram que o sentimento de culpa ou remorso é o principal gatilho no processo de reparação, pois sinaliza para a vítima que o próprio transgressor também está sofrendo, o que evoca simpatia, preocupação e perdão, reduzindo assim a probabilidade de punição. Expressar remorso também serve como uma promessa de comportamento mais aceitável no futuro e sinaliza a intenção do infrator de evitar prejudicar novamente a vítima. O remorso é, portanto, extremamente eficaz em obter perdão e, portanto, promover o reparo do relacionamento.

Mas, e as crianças? Como elas reagem ao sentimento de culpa de um transgressor?


Culpa e perdão em crianças pré-escolares


Diversos estudos em psicologia mostraram que crianças pequenas, após ouvirem histórias onde havia alguma transgressão entre os personagens, eram muito mais propensas a "perdoar" e considerar como justo o desfecho da história quando o transgressor pedia desculpas.

Mas, nesses estudos tradicionais, usando cenários hipotéticos, as crianças eram espectadoras das histórias e, portanto, avaliavam as respostas dos transgressores na perspectiva de um observador e não como parte integrante daquela situação. Julgamentos de terceiros são, sem dúvida, importantes nas relações sociais de cooperação e reparo de danos, mas não constituem perdão verdadeiro. Isso porque o perdão é, por definição, concedido por alguém que foi ferido ou prejudicado, em vez de um espectador. Só as vítimas podem perdoar e, assim, permitir que os relacionamentos sejam reparados. Além disso, quando as crianças são espectadoras e não são pessoalmente afetadas pelas transgressões, seus sentimentos de tristeza ou raiva (que eles precisam superar para perdoar) provavelmente não são tão fortemente ativados como quando são vítimas de transgressões. Em outras palavras, como observadores, eles podem avaliar e considerar as respostas dos transgressores mais friamente, enquanto que, como vítimas, suas emoções fortes podem tornar o perdão mais desafiador para elas.

Alguns estudos recentes, entretanto, têm usado outros métodos para investigar o perdão em crianças. Em 2011, pesquisadores do departamento de psicologia de Harvard mostraram em um experimento que crianças de 4 a 7 anos que sofreram alguma decepção reagiam de forma muito mais positiva e empática quando recebiam pedidos de desculpa.

Outro estudo, de 2016, também investigou a reação de crianças de 6 e 7 anos para o sentimento de culpa de um transgressor. Nesse estudo, as crianças construíam uma torre de brinquedo que era derrubada por um assistente cúmplice do pesquisador. Nas condições do estudo, o transgressor pedia desculpas, oferecia restituição, ou nada fazia. As crianças vítimas eram muito mais simpáticas com os transgressores que ofereciam restituição e pediam desculpas, mesmo quando o pedido de desculpa era pressionado por um adulto (no caso, o pesquisador).

Pesquisadores também investigaram a reação das crianças ao sentimento de remorso dos transgressores sem pedido de desculpa explícito. Um estudo de 2011 mostrou que crianças de 5 anos de idade apoiavam e reagiam positivamente a um transgressor com expressão de remorso mas não a um transgressor sem remorso. Entretanto, crianças de 4 anos não tinham a mesma reação. Segundo os pesquisadores, para crianças com 4 anos ou menos a expressão de remorso pelo transgressor não é suficiente e elas precisam de "pistas", como pedidos de desculpa explícitos, para que possam reagir de forma positiva e restaurar a relação. Entretanto, nesse estudo, as crianças também eram espectadoras da história, e não vítimas da transgressão.

Em um estudo recente, publicado este ano na revista científica Child Development, os pesquisadores investigaram como crianças vítimas da transgressão, e não simples observadoras, reagiriam a transgressores com remorso com ou sem pedido de desculpa explícito. Eles confirmaram a hipótese de que crianças com 5 anos ou mais estão mais inclinadas a perdoar transgressores que expressaram remorso mesmo sem pedido de desculpa do que aqueles que não expressaram remorso, e que crianças até 4 anos não demonstram inclinação a perdoar quando não há pedidos de desculpa explícito.

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 Educadores devem sim conduzir e incentivar as crianças a se desculparem e a perdoarem


O que essas pesquisas têm mostrado é que já na idade de 4 ou 5 anos, a maioria das crianças já tem condições de entender sentimentos de culpa e remorso e são capazes de perdoar e simpatizar com os transgressores. O ato de perdoar depende, contudo, da demonstração de arrependimento, ou remorso, pelo transgressor. Entretanto, parece haver um período de transição entre 4 e 5 anos, onde as crianças vítimas aprendem a identificar expressões de remorso mesmo sem pistas verbais do transgressor, como pedidos de desculpa explícitos. Sem essas pistas, crianças de até 4 anos de idade não reagem positivamente a expressão de remorso e, consequentemente, a restauração de uma relação cooperativa amigável entre as partes é um tanto quanto mais difícil.

É na idade pré-escolar que as crianças desenvolvem o senso de cooperação e aprendem a importância da restauração de danos para a manutenção de relações sociais saudáveis. Portanto, é papel do educador orientar e mediar, por um lado, a consciência do transgressor do dano causado e suas consequências para as relações sociais, a expressão de arrependimento e culpa através da comunicação verbal e, quando possível, também a reparação do dano causado; e, por outro lado, a consciência da vítima da importância da restauração da relação, o que inclui a identificação no outro de sentimentos de remorso e culpa, assim como o desenvolvimento de sentimentos positivos a fim de perdoar e restaurar uma relação social positiva e saudável entre as partes.



Para saber mais:

DRELL e JASWAL. Making amends: Children’s expectations about and responses to apologies. Social Development, 25, 742–758, 2016.

KOCHANSKA et al. Guilt in young children: Development, determinants, and relations with a broader system of standards. Child Development, 73, 461–482, 2002.

OOSTENBROEK e VAISH. The Emergence of Forgiveness in Young Children. Child Development, 0, 0, p.1-18, 2018.

SMITH, CHEN e HARRIS. When the happy victimizer says sorry: Children’s understanding of apology and emotion. British Journal of Developmental Psychology, 28, 727–746, 2010.

SMITH e HARRIS. He didn’t want me to feel sad: Children’s reactions to disappointment and apology. Social Development, 21, 215–228, 2012.

VAISH, CARPENTER e TOMASELLO. Young children’s responses to guilt displays. Developmental Psychology, 47, 1248–1262, 2011.