O que é Comportamento Autolesivo?

Com as recentes notícias acerca do suposto jogo Baleia Azul, houve relativo aumento da preocupação de pais e educadores em relação a comportamentos autolesivos, ou de automutilação, das crianças e adolescentes. Entretanto, esse tipo de comportamento, principalmente entre jovens, não é um fenômeno novo e há tempos tem sido objeto de pesquisas e intervenções em saúde mental.

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Automutilação: comportamento é mais frequente em meninas jovens.

Atenção: O texto aqui apresentado é um material didático com o único objetivo de oferecer esclarecimentos a quem for de interesse, incluindo pais e professores, assim como profissionais da área de saúde, sobre esse tipo de comportamento tão frequente em nossa sociedade. Se você estiver precisando ou se conhece alguém que precise de ajuda, procure um profissional ou serviço especializado de sua região. Em caso de urgência ou risco de vida, você também pode entrar em contato com o Centro de Valorização da Vida (CVV), pelo site www.cvv.org.br ou telefone Ligue 141.


1. O que é o comportamento autolesivo?


Denominamos comportamento autolesivo diversas formas de agressão que uma pessoa comete contra si própria, de forma deliberada, resultando ou não em machucados, mas sem intenção suicida.

De forma geral, qualquer comportamento que causa dano à própria pessoa poderia ser considerado autolesivo por exemplo, uma pessoa que se corta sem querer com uma faca enquanto descasca uma batata. Entretanto, a literatura científica em psicopatologia restringe o termo para fazer referência a comportamentos onde há intenção deliberada de causar danos (ou seja, excluem-se comportamentos de riscos, como manuseio de facas, uso de drogas ou direção perigosa, que podem vir a causar danos, sem que haja essa intenção da pessoa) e onde não há intenção de morte (ou seja, também não são incluídos nessa categoria os comportamentos suicidas).

Na figura abaixo, que apresenta uma classificação geral de comportamentos que podem vir a causar danos à pessoa, os comportamento autolesivos estão destacados em vermelho na parte inferior direita da imagem.

Automutilação, Comportamento autolesivo não-suicida, com e sem intenção de causar danos, direto e indireto, suicida, com intenção de morrer, ideação suicida, plano, planejamento, tentativa de suicídio, pensamento, ameça de, leve, moderado, severo
Classe geral de comportamentos autolesivos: com ou sem intenção suicida.


2. Características do comportamento autolesivo


Comportamentos autolesivos ocorrem tanto em pessoas com desenvolvimento típico podendo estar associado ou não a algum transtorno, como transtorno obsessivo-compulsivo ou transtorno de personalidade , assim como em pessoas com desenvolvimento atípico como, por exemplo, em autistas ou deficientes mentais graves (nestes casos os comportamentos autolesivos são na maioria das vezes classificados como “movimento estereotipado com autolesão”).

A autolesão é um comportamento mais comum entre adolescentes e jovens adultos, normalmente envolvendo cortes da pele. Há evidências também de que, naqueles com desenvolvimento típico, o comportamento autolesivo é mais frequentes em mulheres.

A característica essencial da autolesão não suicida é o comportamento repetido do próprio indivíduo de infligir lesões superficiais em seu corpo. Em geral, o propósito é reduzir emoções negativas, como tensão, ansiedade e autocensura, e/ou resolver uma dificuldade interpessoal. Em alguns casos, a lesão é concebida como uma autopunição merecida.

A lesão é mais frequentemente infligida com uma faca, agulha, lâmina ou outro objeto afiado. Locais comuns para lesão incluem a área frontal das coxas, o lado dorsal do antebraço e a barriga.

Além de se cortar, morder-se, queimar-se, beliscar-se, socar-se, enfiar objetos pontiagudos, dar tapas e arrancar cabelos são exemplos de comportamentos autolesivos. Golpear a cabeça com tapas ou socos é um comportamento comumente associado a crianças com autismo ou outros transtornos do desenvolvimento.

(Clique aqui para saber mais sobre comportamentos autolesivos em autistas)


3. Por que as pessoas se agridem?


Comportamentos autolesivos comumente ocorrem com o objetivo de reduzir ansiedade e estados de tensão mental ou corporal e para aliviar dores emocionais. Também costumam ocorrer com a intenção de se castigar ou expressar raiva e emoções que não podem ser colocadas em palavras. Aqueles que se machucam podem justificar seus atos como uma tentativa de se sentir "na realidade" e evitar a dissociação mental ou desapego emocional.

Um indivíduo pode se engajar em comportamentos de autolesão com uma ou mais das seguintes expectativas:

1.  Obter alívio de um estado sentimental ou de pensamento negativos.
2.  Resolver uma dificuldade interpessoal, ou seja, na relação com outras pessoas. 
3.  Induzir um estado de sentimento positivo.


O indivíduo frequentemente relatará uma sensação imediata de alívio que ocorre durante o processo. O alívio ou resposta desejada é experimentado durante ou logo após a autolesão, e o indivíduo pode exibir padrões de comportamento que sugerem uma dependência em repetidamente agir assim. Quando o comportamento ocorre de forma frequente, pode estar associado a um senso de urgência e necessidade, com um padrão comportamental semelhante à dependência de drogas. Os ferimentos infligidos podem se tomar mais profundos e mais numerosos.

Ideias e planejamento de se engajar em comportamentos autolesivos geralmente ocorrem quando a pessoa está sozinha e experienciando pensamentos ou sentimentos negativos (por exemplo, uma lembrança ruim, raiva, ódio ou uma sensação de esgotamento) em resposta a um evento estressante.

A presença de pensamentos e sentimentos negativos imediatamente antes de a pessoa se engajar na autolesão tem sido relatada de forma consistente em muitos estudos e confirma a crença popular de que a autolesão é realizada na maioria dos casos como um meio de aliviá-los ou de buscar ajuda (por exemplo, com o objetivo final de chamar atenção de outras pessoas para que elas possam ajudar a lidar com pensamentos negativos ou sentimentos).

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Automutilação geralmente ocorre através de cortes no braço com lâmina.



4. Causa e manutenção do comportamento autolesivo


A autolesão intencional pode estar associada a dificuldades interpessoais ou sentimentos e pensamentos negativos, tais como tensão, raiva, angústia generalizada, ansiedade ou autocrítica, ocorrendo no período imediatamente anterior ao ato de autolesão.

Naqueles com desenvolvimento típico, os fatores de risco associados com comportamentos autolesivos inclui histórico de abuso, negligência, perdas, violência e inabilidade em reconhecer, expressar ou lidar com emoções.

Pesquisas sugerem que o comportamento serve tanto a uma função intrapessoal (isto é, diminui estados afetivos / cognitivos aversivos ou aumenta estados desejados) e uma função interpessoal (isto é, aumenta o suporte social ou remove demandas sociais indesejadas).

A hipótese mais aceita no campo da psicopatologia para a explicação deste comportamento foi proposta com base em análises funcionais do comportamento: de acordo com a teoria da aprendizagem, o reforço positivo ou negativo mantém o comportamento autolesivo.

Deste ponto de vista funcional, a hipótese é que o comportamento autolesivo é mantido através de quatro possíveis processos de reforço. Estes processos diferem de acordo com se o reforço é positivo ou negativo, e se os eventos consequentes são intrapessoais ou interpessoais.

Dessa forma, a autolesão pode ser mantida por reforço negativo intrapessoal, onde o comportamento é seguido por uma cessação ou diminuição imediata de pensamentos ou sentimentos aversivos (por exemplo, alívio da tensão, diminuição dos sentimentos de raiva). A autolesão também pode ser mantida pelo reforço positivo intrapessoal, no qual o comportamento é seguido pela ocorrência ou aumento de pensamentos ou sentimentos desejados (por exemplo, autoestimulação, sentir-se satisfeito de ter "punido" a si mesmo).

Por outro lado, a autolesão pode ser mantida pelo reforço positivo interpessoal, no qual o comportamento é seguido pela ocorrência de um evento social desejado (por exemplo, atenção, apoio). E, finalmente, a autolesão pode ser mantida pelo reforço negativo interpessoal, em que o comportamento é seguido por uma diminuição ou cessação de algum evento social aversivo (por exemplo, interromper situações de bullying, os pais pararem de brigar etc.).


Teoria funcional da manutenção do comportamento autolesivo
Intrapessoal
(reforçamento automático)
Reforço positivo
Comportamento induz um estado prazeroso ou de relaxamento, ou sensação de autopunição.
Reforço negativo
Comportamento induz alívio e redução de emoções desagradáveis, ou evitação de pensamentos angustiantes.
Interpessoal
(reforçamento social)
Reforço positivo
Comportamento gera atenção, apoio ou ajuda de outra pessoa de valor significativo dentro do grupo social.
Reforço negativo
Comportamento tem como conse-quência a diminuição ou cessação de algum evento social aversivo.



5. Resistência e diminuição da sensibilidade à dor


A consequência negativa mais óbvia da autolesão é o dano físico envolvido. Cortar, queimar ou ferir o próprio corpo parece ser um evento muito doloroso. Entretanto, um tanto paradoxalmente, a maioria dos indivíduos relatam sentir pouca ou nenhuma dor durante episódios desse comportamento.

Esta sensibilidade diminuída à dor foi confirmada em estudos onde, em relação ao grupo controle, aqueles com um histórico de comportamento autolesivo mostraram menos sensibilidade à dor e limiares perceptivos mais elevados a vários tipos de sensação (por exemplo, pressão, térmica).

As hipóteses para esta diminuição da sensibilidade são que ela resulta da habituação à dor física, da liberação de endorfinas durante a autolesão ou da crença de que alguém merece ser ferido. No entanto, o real mecanismo ainda não é conhecido. Independentemente de por que isso ocorre, a ausência de consequências dolorosas para se engajar em autolesão torna o tratamento deste comportamento ainda mais difícil.


6. Tratamento


Comportamentos autolesivos podem ser sintomas de diversos transtornos mentais, como esquizofrenia, transtorno bipolar, depressão, transtorno obsessivo-compulsivo e transtorno de personalidade, e transtornos do desenvolvimento como autismo e deficiência intelectual. Portanto, o entendimento da função e a classificação do comportamento assim como o tratamento devem sempre levar em consideração o quadro diagnóstico mais amplo.

A grande maioria dos indivíduos que se engajam em comportamentos autolesivos não suicida não busca atendimento clínico. Talvez isso reflita o fato de que o indivíduo não se sente encorajado a relatar um fato que é visto como estigmatizante, ou talvez porque os comportamentos são experimentados de forma positiva pelo indivíduo que se engaja neles e que, portanto, não está motivado a receber tratamento.

Os indivíduos frequentemente tomam conhecimento das consequências negativas de seu comportamento por recomendação ou observação de outra pessoa. Pais, educadores e amigos devem estar atentos e buscar ajuda profissional para tratamento adequado.

Terapias analítico-comportamental, cognitivo-comportamental, comportamental dialética e medicação com psicotrópicos têm mostrado bons resultados no tratamos destes comportamentos autolesivos.


Para saber mais


NOCK, Matthew K. (Editor). Understanding Nonsuicidal Self-Injury: Origins, Assessment, and Treatment. Washington, DC: American Psychological Association, 2009.

IWATA et al. The functions of self-injurious behavior: an experimental-epidemiological analysis. Journal of Applied Behavior Analysis, 1994.

KLONSKY, VICTOR E SAFFER. Nonsuicidal Self-Injury: What We Know, and What We Need to Know. Canadian Journal of Psychiatry, 2014.

CEPPI e BENVENUTI. Análise funcional do comportamento autolesivo. Revista de Psiquiatria Clínica, São Paulo, 2011.

RICHARTZ, Marisa. Comportamentos autolesivos da pele e seus anexos: definição, avaliação comportamental e intervenção. [Dissertação de mestrado] Universidade Estadual de Londrina, Programa de Pós-Graduação em Análise do Comportamento, 2013.

DUARTE, CRUZ e OLIVEIRA. Comportamentos autolesivos na adolescência e disfunção familiar: relato de caso. Revista Portuguesa de Medicina Geral e Familiar, 2015.