Sala de Aula | Por que chamar o aluno de "ajudante" é útil para a disciplina positiva das crianças


Sugerir à criança ser “o ajudante” ao invés de pedir para ela “ajudar”, aumenta a probabilidade dela apresentar comportamentos mais cooperativos, diz pesquisa.



Rótulos tem maior impacto na percepção das pessoas sobre seu próprio comportamento do que verbos que descrevem ações, é o que tem apontado pesquisas em psicologia nas últimas décadas.

Isso acontece porque rótulos (como substantivos e adjetivos) parecem refletir características intrínsecas a pessoa, enquanto ações descritas através de verbos apenas descrevem situações momentâneas.

Por exemplo, dizer a uma criança que ela "fez bagunça" (verbo fazer) ou dizer que ela "é bagunceira" (adjetivo) têm efeitos diferentes em sua autopercepção. No primeiro caso, a criança entende que agiu ocasionalmente de forma inadequada e, no último caso, ela se percebe como inerentemente bagunceira (ser bagunceira é uma qualidade que faz parte de sua natureza, e quando ela faz bagunça sua ação é só um reflexo de sua natureza da qual não se pode escapar).

Consequentemente, psicólogos há tempos orientam pais e profissionais da educação a não rotular negativamente crianças em categorias absolutas para evitar prejuízos em sua autopercepção. Assim, educadores nunca devem dizer a uma criança "você é mentirosa" (rótulo), mas sim "nessa situação você contou uma mentira" (ação).

No entanto, quando são investigados comportamentos pró-sociais, ou seja, aqueles comportamentos socialmente adequados, as pesquisas têm mostrado que rótulos podem ser úteis: as pessoas estão muito mais inclinadas a agir de maneira correta quando "pistas verbais" sugerem que seus comportamentos refletem qualidades ou atributos de sua essência (ou seja, aqueles atributos que formam a identidade ou natureza da pessoa) do que quando descrevem comportamentos.

Em um estudo publicado em 2013, psicólogos da Universidade da Califórnia mostraram que usar o substantivo trapaceiro ("não seja um trapaceiro") ao invés do verbo trapacear ("não trapaceie") foi mais efetivo em reprimir o comportamento de trapacear dos participantes da pesquisa.


"Ajudar" x "Ser o Ajudante"


Mais recentemente, num estudo liderado pelo mesmo psicólogo do estudo anterior, os pesquisadores investigaram como pistas verbais podem ser úteis em motivar crianças a se comportar de forma adequada, colaborando com a professora e com outros colegas.

A pesquisa foi realizada com crianças da pré-escola, entre 4 e 5 anos, em duas condições. Na primeira, o experimentador dizia a cada criança: "você poderia ajudar quando necessário" (verbo); na segunda condição, ele dizia: "você poderia ser o ajudante quando necessário" (substantivo).

Em seguida, eram apresentadas às crianças diversas oportunidades para elas agirem de forma colaborativa. O resultado mostrou que as crianças colaboravam muito mais nas tarefas quando elas eram sugeridas a agir como "ajudantes" (substantivo) do que quando eram orientadas a "ajudar" (verbo).

Para os pesquisadores, a pista verbal ajuda a criança a ajustar seu comportamento dentro da representação de sua identidade descrita pelo rótulo.

Outros psicólogos, entretanto, advertem para o uso exagerado de rótulos, pois a criança pode ter prejuízos em sua autoprecepção e, consequentemente, em sua autoestima, quando seu comportamento não corresponde à expectativa descrita pelo rótulo.