Seu filho é muito ANSIOSO? Talvez o problema seja outro


por Eduardo de Rezende

“Meu filho é muito ansioso!” — já ouvi essa frase dezenas de vezes. O problema é que a frase é dita por pais de crianças de 5 ou 4 anos.

Crianças têm sim ansiedade. Todos temos. Mas questiono se é esse mesmo o diagnóstico que devemos fazer das situações que os pais geralmente estão chamando de ansiedade.



Quando pergunto aos pais o que eles querem dizer com ansiedade, eles comumente dão o exemplo: “ele não consegue esperar; quando quer, ele quer na hora!”

Ora, veja: isso não é ansiedade (pelo menos, na maioria das vezes não).

Ansiedade envolve preocupação: nos ocupamos com pensamentos sobre um risco futuro. Esses pensamentos geralmente vêm acompanhado do medo. Medo de passar vergonha, medo de sofrer uma agressão, medo de não ter um bom desempenho, medo de perder, medo de não conseguir etc.

Uma criança com “medo” de apresentar um trabalho na escola, pensa insistentemente no que pode dar errado, que não vai conseguir fazer uma boa apresentação, que vai obter uma nota ruim ou que os coleguinhas vão rir. Essa criança está ansiosa! Uma criança com “medo” de sofrer uma violência de um colega de turma, preocupa-se em como vai ser o dia seguinte e faz de tudo para não ter de voltar à escola. Essa também está ansiosa. Uma criança que lembra mil vezes a mãe que na sexta-feira é dia do lanche na escola e que ela não pode esquecer de levar os sanduíches, pode também estar ansiosa com medo do constrangimento de esquecer o lanche.

Agora, uma criança que insiste em ter um doce ou insiste em acessar um vídeo no Youtube não é uma criança ansiosa pois não há preocupação com um risco no futuro. Não há medos ou receios, há apenas desejo. Não há ansiedade, há impaciência: a dificuldade em tolerar a espera ou em tolerar um “não!”.


Criança ansiosa ou criança impaciente?
ANSIEDADE
IMPACIÊNCIA
Crianças ansiosas demonstram medo ou preocupação
Crianças impacientes demonstram raiva e, às vezes, agressividade
Uma criança ansiosa comumente prefere se afastar e pensar sozinha, e só fala quando precisa da ajuda de um adulto
Crianças impacientes são fisicamente agitadas, costumam querer atenção
Crianças ansiosas muitas vezes não conseguem explicar direito o motivo da preocupação (ou acham que o adulto não irá entendê-las, e preferem não falar)
Crianças impacientes apontam com clareza o que desejam e insistem em pedir aos adultos até serem atendidas
Crianças ansiosas podem apresentar mudanças repentinas de comportamento (por exemplo, deixar de querer ir a um lugar que gostava de ir anteriormente)
Crianças impacientes geralmente insistem no mesmo objeto de interesse durante bastante tempo


É claro, o desejo pode ocasionalmente vir acompanhado de preocupação: “eu preciso desse doce agora, porque se eu não o comer agora, eu nunca mais vou ter a chance de comê-lo”. Mas, aqui está o ponto: crianças pequenas raramente tem essa elaboração de pensamento que produz a “preocupação”. Seu desejo é puro e não acompanhado de riscos.

Pessoas ansiosas podem ser impacientes, e vice-versa. Mas ansiedade e impaciência não são a mesma coisa.

Ansiedade é um estado do corpo. Impaciência é a falta de uma habilidade (a habilidade de ser paciente!).

Ninguém nasce com a habilidade de ser paciente. Aprendemos a esperar, ou melhor, a “tolerar a espera” ao longo da vida. Algumas crianças impulsivas, como aquelas com TDAH, podem ter maior dificuldade para aprender a esperar. Mas, mesmo essas, aprendem.

Desde a década de 1960, psicólogos avaliam a capacidade de esperar das crianças em experimentos como o Teste do Marshmallow. Neste teste, a habilidade da criança era avaliada através da decisão dela de comer ou não um doce à sua disposição. Aquelas que conseguiam esperar sem comer, ganhavam mais doces depois de um tempo.

Crianças mais velhas conseguem aguardar durante mais tempo. Isso acontece em consequência da maturação cerebral que permite maior controle inibitório dos impulsos e, por outro lado, pela aprendizagem social: as crianças devem ser orientadas e ensinadas a ter paciência.

Você pode ajudar a criança a ser mais paciente:

  • Recompensando-a quando ela conseguir ser paciente, e não o contrário (muitos pais infelizmente dão o que as crianças querem quando elas insistem muito, isso só reforça o comportamento impaciente);
  • Informando-a, momentos antes de uma situação de espera, que terão de aguardar um tempo (por exemplo, “vamos chegar à sala do dentista daqui a pouco, mas deveremos esperar um pouco até sermos atendidos, certo? Eu sei que é chato esperar, mas reclamar ou insistir para sermos atendidos na hora não vai adiantar de nada”);
  • Sugerindo oportunidades de distração em momentos de espera;
  • Convidando as crianças a jogar jogos de tabuleiro ou cartas com turnos individuais onde cada um deve aguardar sua vez de jogar (lembre de dizer “agora é minha vez, você deve aguardar um pouco... agora é sua vez);
  • Lembrando-a que ela pode fazer outras atividades quando ela não tem o que deseja;
  • Usando um “temporizador visual” para que ela aprenda a noção de tempo e saiba o quanto deve aguardar;
  • Não aja com impaciência. Seja você mesma(o) um modelo de paciência para seus filhos.


Pare de justificar o comportamento de seu filho rotulando-o como ansioso e dê oportunidades de ele aprender a ter mais paciência, saber esperar e saber que nem sempre ele vai ter o que quer na hora que quer.


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