Educação Emocional precisa ir além do indivíduo: o "lidar com as emoções" deve ser social



por Eduardo de Rezende

Todo dia, mensagens positivas para sermos autossuficientes enriquecem nossas redes sociais. Dizem que estar bem é “estar bem consigo mesmo”; que o mais importante é o amor próprio. Mas está na hora de pensarmos a Educação Emocional em contexto de grupo. Ir além do "só depende de mim mesmo".

Se estamos preocupados em ensinar o "lidar com as emoções", então precisamos ir além do indivíduo na educação emocional. O "lidar" precisa ser em grupo, dentro de contextos sociais.

Por quê?

Veja: o homem é um bicho social, e por si só nunca será suficiente. Dependemos do outro, do grupo, da família, dos amigos, da comunidade. Nosso cérebro evoluiu para viver em grupo; para afetar e ser afetado por outras pessoas.

Os psicólogos do século XX mostraram que nosso desenvolvimento mental, social e afetivo se desenrola só, e somente só, na interação com o outro. Psicólogos clínicos mostraram como a não satisfação (com e pelo outro) de necessidades emocionais básicas, principalmente na infância, leva a padrões de pensamento e comportamento disfuncionais. Esquemas emocionais patológicos de insegurança, vergonha, culpa, fracasso etc... são todos construídos em relações sociais.
Nossas expressões emocionais evoluíram em centenas de milhares de anos em contexto de grupo, justamente para afetar o outro; para que o sentimento não fique encerrado no indivíduo e possa ser reconhecido e validado pelo outro.

Muitos conhecem o famoso psicólogo Daniel Goleman por seu livro "Inteligência Emocional" publicado na década de 90. Mas poucos conhecem seu livro "Inteligência Social" publicado anos depois onde o autor completa: somos programados para nos conectar. As emoções são ponte e consequência dessas conexões. É na relação com o outro que nossas emoções emergem. É pela ação dos outros que nossos sentimentos desabrocham, e é pelas nossas ações que o outro também se afeta.

"Minhas emoções não são responsabilidade só minha."

A Educação Emocional deve olhar também o grupo: indivíduos emocionalmente saudáveis se desenvolvem dentro de culturas emocionalmente saudáveis (em casa, nas escolas, organizações), onde consciência emocional e responsabilização seja também pelas emoções do outro.

Educadores e profissionais da saúde, mais do que incentivar o “amor próprio” devem buscar desenvolver ambientes sociais – ou culturas – onde o autoconhecimento seja também conhecimento do outro; onde a autorresponsabilidade seja também responsabilizar-se pelo outro; onde o autocuidado seja também cuidar do outro. E que a autoajuda seja também ajudar e poder contar com a ajuda do outro.