Transtorno de Dependência de Tela é real e pode estar destruindo o cérebro do seu filho

Menino viciado em tela não quer largar o tablet
Crianças agitadas e com humor instável pode ser sinal do transtorno


Há anos, diversas organizações de saúde têm sugerido limitar o tempo de tela para crianças. As diretrizes atualizadas da Academia Americana de Pediatria recomendam no máximo uma hora de tela por dia para crianças de 2 a 5 anos de idade. Bebês com menos de 18 meses devem evitar completamente acesso a telas.

Vários estudos têm mostrado que o uso excessivo da tela pode prejudicar as  crianças, desde problemas de sono e dificuldades de comunicação  até socialização e desenvolvimento do cérebro. Agora, uma nova pesquisa afirmou que o uso prolongado de eletrônicos pode levar ao Transtorno de Dependência de Tela.

O Transtorno de Dependência de Tela refere-se ao comportamento 'viciante' relacionado à tela, de acordo com o Dr. Aric Sigman , psicólogo norte-americano autor do artigo de pesquisa Transtornos de Dependência de Tela: Um Novo Desafio paraa Neurologia Infantil, publicado em 2017.


Crianças com esse transtorno de dependência ficam presas ao dispositivo desde o momento em que acordam, costumam comer com os olhos colados na tela, jogando, assistindo a vídeos ou jogando, e evitam outras atividades para continuar fazendo uso da tela.

Alguns sinais são consequências desse problema podem indicar que a criança está “viciada em tela”: insônia, dor nas costas, ganho ou perda de peso, problemas de visão, dores de cabeça e má nutrição como sintomas físicos. Ansiedade, desonestidade (ex. falar mentira), sentimentos de culpa e solidão são os sintomas emocionais. Muitos dos que sofrem do distúrbio preferem se isolar dos outros e costumam ficar agitados e com mudanças de humor.



Com base na pesquisa de Sigman, aqueles que são viciados em telas também exibem comportamento problemático e dependente, incluindo sintomas de abstinência, falha em reduzir ou interromper as atividades da tela, mentira sobre a extensão do uso, perda de interesses externos, e continuação do uso da tela apesar das consequências adversas.

Alguns estudos têm mostrado que aqueles com o transtorno podem apresentar "diferenças estruturais no cérebro", de acordo com o pesquisador. Em outras palavras, um dos efeitos a longo prazo do vício em telas é o dano cerebral. A parte do cérebro que controla os impulsos, assim como áreas do cérebro responsáveis pelo planejamento e organização são algumas das partes afetadas.

Outro resultado alarmante é que, diz-se, danifica uma área conhecida como "insula", que desenvolve empatia e compaixão pelos outros. O tempo de tela excessivo também leva ao processamento ineficiente de informações e ao baixo desempenho das tarefas.

Algumas características das crianças viciadas em tela:

1.       preocupação excessiva em poder usar eletrônicos
2.      isolamento
3.      aumento da tolerância a telas (não se sentem fadigados pelo uso)
4.      falham em reduzir ou parar o uso de telas
5.      perda de interesse em outras atividades
6.      mentiras sobre o uso de dispositivos
7.      birra e comportamento agressivo
8.     uso concomitante de tela com outras atividades (ex. durante refeição)




O transtorno não é algo que nasce com a criança


O desenvolvimento do cérebro é influenciado pelas experiências de vida. Todo mundo nasce com um sistema de recompensa no cérebro que nos deixa susceptível a comportamentos viciantes. Se nos engajamos em uma atividade que nos recompensa com uma sensação de prazer, temos a tendência de repeti-la para buscar cada vez mais essa sensação prazerosa. Quando essa busca é excessiva e traz prejuízos em outras áreas da nossa vida, dizemos que temos um problema, um transtorno de dependência.

Isso é verdade para qualquer vício, seja em substâncias como álcool e drogas, em games, em jogos de aposta, e também em “telas” (o uso de eletrônicos como tablets e smartphones).

Assim como qualquer comportamento de dependência, o vício em telas é consequência da relação que a criança tem com o ambiente social que ela vive. Dizer que ela tem um transtorno de dependência não é “uma desculpa” para justificar seu comportamento, mas sim o reconhecimento de que o comportamento dela está trazendo prejuízos graves para seu desenvolvimento neurológico e social, e que, portanto, precisa de intervenção urgente.

Os pais precisam se encarregar de gerenciar o uso equilibrado da tecnologia em casa. Eles devem ser capazes de incentivar seus filhos a participares de outras atividade, aprimorarem sua linguagem e habilidades socioemocionais.

Em vez de desenhar no smartphone ou tablet, os pais podem motivar seus filhos a desenhar, rabiscar e colorir usando giz de cera, lápis e papel. Se eles gostam de construir estruturas, os pais podem substituir o dispositivo por blocos, caixas ou outros materiais que possam manipular ou empilhar.

Acima de tudo, as crianças devem ser incentivadas a interagir com os colegas pessoalmente. Não apenas eles desenvolverão fortes habilidades interpessoais, mas também desenvolverão suas habilidades motoras e criatividade.

Você não precisa proibir completamente o uso de eletrônicos, mas gerenciar o tempo de tela do seu filho pode ser difícil, mas garantimos que é totalmente possível. Lembre-se de equilibrar tecnologia e aprendizado da vida real, e você tem tudo sob controle.


Para saber mais:

SIGMAN, Aric. Screen Dependency Disorders: a new challenge for child neurology. Journal of the International Child Neurology Association, 2017.

SAROJINI, GAYATHRI e VISHNU. Awareness of screen dependency disorder among information technology professionals – A survey. Drug Invention Today, 2019.

KUSS e GRIFFITHS. Internet and gaming addiction: A systematic literature review of neuroimaging studies. Brain Sci., 2012.

CARTER et al. Association Between Portable ScreenBased Media Device Access or Use and Sleep Outcomes: A Systematic Review and Meta-analysis. JAMA Pediatrics 170.12 (2016).

YUAN et al. Cortical thickness abnormalities in late adolescence with online gaming addiction. PLoS One, 2013.

_____. Microstructure abnormalities in adolescents with internet addiction disorder. PLoS One, 2011.

*Tradução adaptada de: Screen Dependency Disorder Is Real, and It Damages Your Child's Brain (2018, em https://www.smartparenting.com.ph/)






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