Professores precisam ser mais ativos para enfrentar o bullying dentro das escolas

Pesquisa revela que 80% das crianças não confia nos professores para denunciar episódios de bullying na escola

Menino batendo colega menina na escola; plano de aula sobre bullying

por Eduardo de Rezende
23 de maio de 2020

Nenhum professor seria simpático com violências perpetradas na escola. Todos concordariam que qualquer forma de agressão contra seus alunos deve ser prontamente reprimida e, talvez, até penalizada.

Entretanto, são poucos professores que tem uma postura ativa e efetiva no combate ao bullying. É comum cenas onde o professor, assistindo à sua volta um episódio de violência, ignora totalmente a cena ou, talvez pior, diz à vítima: “você vai deixar eles te baterem?”. 

Já tive a infelicidade de presenciar algumas vezes professores dizendo esse tipo de barbaridade durante agressões contra aluno — por exemplo em um episódio onde uma vítima era humilhada e atacada por um grupo de seis meninos mais velhos, fisicamente mais fortes e socialmente mais populares, o professor simplesmente disse à vítima: “eles fazem isso porque você deixa!”.

O professor pode achar que está encorajando o aluno a ter autonomia e coragem, mas, além de consentir com o ato de violência, a mensagem que ele está passando para a vítima é: a culpa é sua por ser fraco.

Em uma oportunidade de estagiar em escolas de ensino fundamental I durante minha graduação em psicologia, me assustava ver diariamente tantos episódios de bullying na forma de micro-agressões — não são agressões bem destacas como aquelas cenas de filmes americanos onde a vítima tem sua cabeça enfiada na privada do banheiro ou é jogada de cabeça para baixo em latões de lixo, mas sim um menino que todo dia “pega à força” a merenda do colega, um grupo de garotos que frequentemente se divertem lançando entre si a mochila do colega fazendo-o de bobinho, ou uma menina que diariamente na fila do lanche dispara socos quase que disfarçados nas costas de uma colega mais indefesa à sua frente.

Dava pra ver a cara de medo, raiva, tristeza e desamparo das vítima. Mas o que mais me assustava era que essas cenas ocorriam a um ou dois metros dos professores, auxiliares e outros profissionais da escola, que ou as ignoravam ou emitiam um som verbal do tipo “eeeei!” quando a coisa esquentava um pouco, mas que consideravam o episódio apenas como uma brincadeira deliberada entre vítima e agressor.


Meninas brigando na escola, trabalhar o bullying na educação

Às vezes os professores ignoram involuntariamente episódios de bullying quando a violência está de fato camuflada em meio às brincadeiras. Mas a maioria dos professores ignora conscientemente esses episódios. Ignoram porque normalizam esse comportamento. Muitos acreditam que esses conflitos é “coisa da idade”. Se o professor enxerga como “é só brincadeira de criança”, a criança aprende que é só uma brincadeira, e se ela está sofrendo física ou emocionalmente nessa brincadeira é porque é fraca, não sabe brincar, é uma perdedora!

Outros professores ignoram porque já estão sobrecarregados com suas obrigações e não querem ter mais trabalho, principalmente quando lidar com esse problema envolve lidar com as famílias.

Alguns dizem que a criança precisa aprender a resolver seus próprios problemas. Sim, crianças precisam aprender a resolver seus conflitos, mas a aprendizagem da resolução de conflitos deve ocorrer mediada por adultos dentro de uma cultura onde a violência não é tolerada.

Segundo a pesquisadora Faye Mishna, a visão que os professores tem sobre bullying é muito limitada, a maioria parece inconsciente do sofrimento de uma criança que é vítima de bullying, eles não consideram que a agressão que a criança sofreu é séria.

Que aluno confiaria nesses professores para denunciar que estão sofrendo bullying?

Em um estudo publicado em 2018, a maioria dos alunos respondeu em uma pesquisa que não confiavam em seus professores para denunciar episódios de bullying— dentre as crianças que diziam sofrer violência dos colegas, 80% disse não confiar nos professores.

Esses alunos também disseram que “os professores nunca levam isso a sério” e “ninguém conta para os professores porque eles não fazem nada”.

O que difere o bullying de um conflito corriqueiro é que no primeiro há  (1) repetição frequente da violência e (2) uma relação de poder desbalanceada entre as partes, sendo a parte mais forte a única interessada (diferente do conflito onde há uma disputa de interesse por ambas as partes). No bullying, a parte mais forte aproveita de seu poderio para exercer controle sobre a parte mais fraca. Simplesmente, não há como a vítima reagir, como sugerem alguns adultos às vítimas.

"Quando você se defende, você não está sofrendo bullying; bullying é quando você não tem força pra reagir" — disse uma aluna vítima de violência escolar. Quando a vítima leva na brincadeira não quer dizer que ela está achando aquilo legal ou está aceitando, é só uma estratégia de evitação, para se proteger, por que a criança sabe que, sendo mais fraca, se enfrentar o agressor ela pode se dar mal.

Infelizmente, também a maneira como muitos professores tentam resolver o problema não leva em consideração relações de poder no mundo das crianças e a posição vulnerável da vítima, e podem piorar a situação. Ao ser entrevistada, uma menina disse: "contei para a professora uma vez; ela puniu a menina mas depois as coisas acabaram ficando pior pra mim". Na publicação não é explicado o porque de ter piorado, mas podemos supor que longe da professora, a agressora deve ter intensificado ainda mais as ameaças e agressões.

Por isso é muito importante que ao tentar intervir em uma situação de bullying, de início o adulto deve ouvir primeiro a vítima e perguntar diretamente para ela: você acha que advertir o agressor neste momento é uma boa opção ou pode piorar a situação para você? É claro que em algum momento o agressor deverá ser responsabilizado, mas isso deve ser feito com cuidado. De início, antes de punir o agressor, o importante é passar segurança para vítima e mostrar que ela não está sozinha.

Na mesma pesquisa, outros alunos denunciam que muitas vezes os agressores são alunos populares e queridinhos dos professores.  “O professor ficou lá parado e deixou ele me humilhar na frente de todo mundo, só porque ele (o agressor) faz parte do time da escola" — disse um aluno. “Eles são bonzinhos só na frente do professor, quando o professor não está por perto, eles vêm atrás da gente” — disse outro.



Outra pesquisa, de 2005, mostrou que cerca de 75% dos professores não fazem nada para parar o bullying. As explicações dos próprios professores para falta de intervenção inclui que eles não sabem o que fazer, o fato de não terem testemunhado os incidentes, a atribuição de responsabilidade para outros profissionais da escola e a percepção de que o "bullying leve" é um comportamento típico da infância sem consequências sérias.

Quando foi questionado porque não interviu numa agressão contra um aluno, um professore respondeu: “eles são amigos e estão só brincando."

Sem a participação efetiva dos professores, que são os adultos que passam mais tempo próximos às crianças, não é possível construir uma cultura de não violência na escola onde o bullying não é tolerado. Os professores precisam ser mais ativos nesse processo de enfrentamento à violência escolar e passar confiança às crianças, cujo sofrimento não pode ficar invisível aos olhos de qualquer adulto dentro ou fora escola.

Construir uma política de não violência na escola não é fácil e demanda muito esforço, mudança de rotinas, planejamento de estratégias, prevenção, supervisão ativa e participação de todos. Não existe uma receita pronta para enfrentar o bullying em espaço escolar, mas algumas dicas podem ajudar nesse processo. Veja como a escola pode contribuir para a construção de um ambiente de confiança entre adultos (professores ou não) e alunos:

  1.  Criar uma cultura de não-violência na escola, que sirva para prevenir episódios de bullying e facilitar processos de intervenção na crise;
  2. Não normalizar ou tolerar o comportamento agressivo entre as crianças, nem os que são considerados “leves”;
  3. Pensar o bullying não só em sua forma mais evidente (agressão física), mas também em toda relação de poder e de controle que um ou mais alunos exercem sobre os outros;
  4. Pesquisas mostram que pequenas violências e relações de poder entre as crianças são invisíveis para a maioria os professores e outros profissionais da escola. Uma cultura de não-violência inclui torná-las visíveis, reconhecê-las como violência;
  5. Vítimas de bullying geralmente estão numa posição social inferior de baixa popularidade; uma estratégia interessante seria torná-las mais populares ou pelo menos mais visíveis, o que pode ser feito, por exemplo, através da inclusão delas em alguma atividade extraclasse ou como ajudantes dos professores, ou através do reconhecimento público de suas habilidades e conquistas;
  6. Corrigir as micro-agressões. Além de prevenir problemas maiores no futuro, você está mostrando para as vítimas que você está de olho e que elas podem confiar em você, além de torná-las menos vulneráveis;
  7. Não espere as crianças denunciarem para intervir. Ao observar qualquer forma de violência, intervenha! Uma dica é conversar primeiro com a vítima para acolhê-la e entender o que está acontecendo e pensar soluções; depois conversar com o agressor;
  8. NUNCA culpar a vítima pelas agressões;
  9. Acolher as vítimas com empatia. Mesmo quando o professor não sabe exatamente o que fazer para corrigir o problema, ouvir a vítima e reconhecer seu sofrimento é essencial. A criança precisa ter certeza que ela não é invisível para os adultos. O professor pode simplesmente dizer inicialmente eu vi o que eles fizeram com você; isso é muito chato, você deve estar triste ou até com raiva deles; vamos pensar juntos o que podemos fazer para resolver esse problema!” 
  10. Incentivar denúncias e acolhê-las com atenção. O profissional da escola que recebe a denúncia deve ter uma atitude de detetive para ouvir atentamente a vítima, entender com clareza o problema e responsabilizar os agressores. Assim as crianças terão mais confiança em continuar denunciando;
  11. Apresentar às crianças de maneira direta os canais de denúncia, o que elas podem fazer para denunciar e com quem elas podem falar. Apresentar oralmente e também através de cartazes pela escola;
  12. Forme uma comissão escolar anti-bullying incluindo entre os membros, além dos profissionais da escola, representantes dos alunos e também dos pais. A participação de outros pais (não os pais das vítimas, nem dos agressores) pode ser interessante para mediar conflitos.
  13. Seja transparente com as crianças vítimas sobre o que tem sido feito para corrigir o problema.


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Bibliografia:

Fante, C. Fenômeno Bullying: como prevenir a violência nas escolas e educar para a paz. Campinas, SP: Verus editora, 2005.

Hicks et al. (2018) Middle School Bullying: Student Reported Perceptions and Prevalence. Journal of Child and Adolescent Counseling, 00: 1–14.

Mishna, F. et al. (2005) Teachers' understanding of bullying. Canadian Journal of Education, v. 28, n. 4, p. 718-738.

Mishna, Faye. (2012) Bullying: A guide to research, intervention, and prevention. Oxford University Press: New York.

Palácios e Rego (2006). Bullying: mais uma epidemia invisível?. Revista Brasileira de Educação Médica, 30(1), 3-5.

Silva, P., Freller, C., Alves, L., & Saito, G. (2017). Limites da consciência de professores a respeito dos processos de produção e redução do bullying. Psicologia USP, 28(1), 44-56.


Toro, Neves e Rezende (2010). Bullying, o exercício da violência no contexto escolar: reflexões sobre um sintoma social. Psicologia: teoria e prática, 12(1), 123-137.