A Neurociência da Inteligência: há evidências empíricas para a Teoria das Múltiplas Inteligências?

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Howard Gardner em sua Teoria das Múltiplas Inteligências identificou que a cognição humana é baseada em 8 formas distintas de inteligência e associou cada uma dessas inteligências a diferentes estruturas cerebrais. Em um estudo recente, pesquisadores confirmaram que as estruturas apontadas por Gardner de fato podem estar relacionadas aos processos cognitivos descritos pelo autor.


Unicidade X Multiplicidade da Inteligência


O conceito de inteligência tem sido fortemente debatido desde a introdução dos testes de QI no começo do século XX. Alternativas teóricas ao conceito de unicidade da inteligência têm tido limitada aceitação entre cientistas e educadores. Apesar do ceticismo sob a alegação de que falta evidências empíricas, a Teoria das Múltiplas Inteligências tem ganhado cada vez mais atenção de educadores do mundo todo. A Teoria das Múltiplas Inteligências, de Howard Gardner, foi uma das primeiras formulações sobre inteligência baseada em evidências neurocientíficas. Em estudo publicado recentemente na revista científica Trends in Neuroscience and Education, os autores revisaram mais de 300 pesquisas e concluíram que há evidências sólidas de que cada inteligência possui seu correspondente neural.



Sistemas neurais e a Teoria das Múltiplas Inteligências


O conceito de inteligência é um emaranhado teórico confuso na história da ciência e da educação. Muitos abandonaram o conceito em parte ou inteiramente e, em vez disso, ocupam-se de termos como 'habilidades cognitivas', 'resolução de problemas' ou 'capacidades de processamento de informações'.

No entanto, muitos cientistas também estiveram preocupados em investigar os sistemas neurais que estão por trás das ações intelectuais. O motivo é claro, como resumido pelos pesquisadores Jung e Haier (2007): "... não há conceito mais importante na educação do que o conceito de inteligência". Esses mesmos autores afirmaram que nem todos os cérebros pensam da mesma maneira, então "esse simples fato poderia ser revolucionário para a educação porque exige uma abordagem neurocientífica que reconheça a importância das diferenças individuais e a necessidade de avaliar cada aluno em suas especificidades" (2008).

A Teoria das Múltiplas Inteligências (MI) motivou essa investigação. Howard Gardner redefiniu a inteligência como a capacidade de resolver problemas ou criar produtos de valor dentro de uma cultura ou comunidade. Usando essa definição e oito critérios que cobrem uma variedade de evidências empíricas, Gardner identificou oito formas distintas de inteligência que são possuídas por todas as pessoas, mas em diferentes graus. As oito inteligências identificadas são:


1. Linguística,
2. lógico-matemática,
3. visuo-espacial,
4. corporal-cinestésica,
5. musical,
6. interpessoal,
7. intrapessoal e
8. naturalista.



Muitos pesquisadores tradicionais criticaram a teoria das MI por uma série de razões. Uma crítica é que a teoria das MI carece de evidências de estudos de grande escala ou de pesquisa experimental. Também foi afirmado que as "oito inteligências" sejam simplesmente diferentes manifestações da mesma inteligência geral. Como consequência, uma importante crítica prática é que os educadores não devem basear decisões educacionais e curriculares sobre uma teoria cujo status científico é controverso.

Entre neurocientistas, as teorias predominantes sobre a inteligência é que: existe uma inteligência geral (g) ou dois tipos de inteligência (fluida e cristalizada). No entanto, há um debate sobre as possíveis subdivisões da inteligência e a relação de cada subdivisão com "g". Numerosas teorias que se desviam da teoria da inteligência unitária incluindo a teoria triárquica da inteligência de Sternberg, a inteligência emocional de Goleman, a teoria da estrutura do intelecto de Guilford, a teoria das faculdades mentais de Thurstone e a teoria dos estilos cognitivos de Kolb tiveram uma influência notável, mas limitada.

Algumas teorias foram reconhecidas no campo da psicologia, mas não abraçadas por educadores. Poucas tiveram o impacto duradouro e profundo sobre a educação como teoria das inteligências múltiplas, ainda de interesse em todo o mundo mais de 30 anos após sua introdução. Apesar deste amplo apelo aos educadores, a teoria das MI continua sendo mais uma narrativa educacional inspiradora do que uma teoria científica totalmente desenvolvida.

As críticas práticas são de particular importância, já que o campo emergente da “neurociência educacional” se esforça para estabelecer uma base para metodologias pedagógicas baseadas em evidências. Este novo campo tem lutado para construir conexões práticas entre ciência do cérebro e escola. Em seus primeiros anos, havia um ceticismo generalizado de que a educação baseada no cérebro poderia se desenvolver sem o proveito de teorias psicoeducativa para unir neurociência e educação. Esta situação melhorou recentemente, mas o campo continua a lutar para fazer uma distinção entre uma "psicologia pop" do ensino baseado no cérebro, ou seja, do senso comum, e a real ciência do cérebro que pode ser aplicada sistematicamente na educação.

Neste estudo publicado em 2017, os autores fizeram uma revisão de 30 anos de pesquisa de neurociência sobre a cognição humana investigando estruturas neurais que estão associadas a cada inteligência particular. Eles compararam as evidências neurocientíficas de relação entre cada inteligência com as áreas corticais apontadas por H. Gardner em sua teoria das Múltiplas Inteligências (ver tabela abaixo) para saber se as afirmações do autor foram ou não certeiras.


Inteligência
Região neural apontada por Gardner
Interpessoal
Lobos frontais como estação integradora, sistema límbico
Intrapessoal
Sistemas do lobo frontal
Lógico-matemática
Lobo parietal esquerdo e áreas de associação temporal e occipital adjacentes, hemisfério esquerdo para nomeação verbal, hemisfério direito para organização espacial, sistema frontal para planejamento e definição de metas
Linguística
Área de Broca no córtex frontal esquerdo, área de Wernicke no lobo temporal esquerdo, sulco lateral na parte inferior do lobo parietal
Espacial
Lobo occipital e parte posterior do lobo parietal direito
Naturalista
Lobo parietal esquerdo para discriminar entre seres vivos e não-vivos
Musical
Lobo frontal e parte anterior do lobo temporal direito
Corporal/ Cinestésica
Área motora, tálamo, gânglios basais e cerebelo



Resultado da pesquisa


Após analisar mais de 300 estudos neurocientíficos para investigar se há ou não evidências seguras de que cada inteligência identificada por Gardner possui correlação com as estruturas neurais, os autores chegaram a seguinte conclusão: há forte relação entre as regiões cerebrais descritas por Gardner e a literatura sobre neurociências cognitivas que se acumulou nos últimos anos. Para os autores do estudo, esse resultado fornece evidências sólidas que dão suporte para a teoria das múltiplas inteligências.

Embora algumas inteligências compartilhem as mesmas áreas neuronais, nenhuma delas compartilhou mais de três regiões apontadas. Por exemplo, o córtex frontal representava aproximadamente 40% das referências tanto para a inteligência musical como para a inteligência intrapessoal, o que poderia implicar uma similaridade neural das duas inteligências. No entanto, uma análise mais detalhada revelou que na inteligência musical, as referências sobre o córtex frontal eram específicas para o córtex motor. Enquanto na inteligência intrapessoal, as referências eram específicas para o córtex pré-frontal. Ou seja, as estrutura neuraisl das duas inteligências eram de fato distintas.

Com base na análise detalhada desses mais de 300 estudos de neurociências, parece que há evidências sólidas de que cada uma das oito inteligências possui sua própria arquitetura neural. Há, claro, pontos comuns entre inteligências relacionadas e compreender essas configurações únicas e pontos comuns futuramente nos fornecerá informações sobre como o cérebro processa uma ampla gama de informações e como ele desempenha performances intelectuais.

Se a teoria das múltiplas inteligências pode servir como uma interface eficaz entre neurociência e educação continua a ser uma questão aberta. Mas o estudo traz evidências atualizadas para a hipótese neurológica apresentada por Gardner há mais de 30 anos e indica sua contínua plausibilidade. Poderemos então estar em uma posição mais forte para aprimorar a "arte do ensino" para que todos os alunos possam desenvolver seus potenciais únicos, seja lá qual for suas habilidades.




Para saber mais:
SHEARER e KARANIAN. The neuroscience of intelligence: Empirical support for the theory of multiple intelligences? Trends in Neuroscience and Education. Volume 6, 2017, p. 211-223.