Você sabe o que são Funções Executivas?

por Eduardo de Rezende

Nos últimos anos tem havido crescente interesse de profissionais de diversas áreas pelas Funções Executivas, termo que tem ganhado cada vez mais presença na academia científica, consultórios e escolas (e até mesmo no palco com empreendedores e palestrantes motivacionais). Mas afinal, o que são funções executivas?

Funções executivas. Controle inibitório, memória operacional, flexibilidade cognitiva


O que são as Funções Executivas?

Nossos mundos natural e cultural estão o tempo todo nos impondo demandas e tarefas que precisamos resolver para termos êxito em nossa vida pessoal e social e, no extremo, sobrevivermos como espécie.

Resolver tarefas, prever eventos futuros, planejar, solucionar problemas, avaliar resultados, justar nossos comportamentos, criar novas estratégias e ferramentas, estabelecer planos de ações... todas essas habilidades fizeram com que nós, humanos, alcançássemos nosso sucesso como espécie dominante no planeta. Nossa capacidade de se adaptar, resolver problemas e criar coisas fez sermos o que somos hoje.

Tudo isso foi possível graças às chamadas funções executivas (FEs), que são habilidades que nos possibilitam manipular mentalmente nossas ideias, adaptarmos-nos de maneira rápida e flexível a mudanças do ambiente, atentar para o futuro e reservamos um tempo para considerar o que fazer em seguida, resistir às tentações e impulsos, manter o foco e enfrentar novos desafios imprevistos.

As FEs, chamadas também de controle executivo ou central executiva, é o mais complexo aspecto da cognição humana, pois tornam possível a capacidade das pessoas de se empenharem em comportamentos orientados a objetivos, planejando, monitorando e regulando diferentes tipos de processos cognitivos, comportamentais, emocionais e, consequentemente, sociais.

Nem todo funcionamento cognitivo demanda o uso das FEs. Em geral, nosso cérebro evita gastar energia e tende a repetir estratégias e padrões de comportamento já aprendidos de forma automática. Porém, quando as circunstâncias mudam e novos desafios aparecem, precisamos acionar toda maquinaria cerebral de forma controlada, focando nossa atenção, criando novas estratégias e regulando nosso comportamento para conseguirmos resolver o problema.

As FEs são, portanto, recrutadas em situações novas e complexas onde o processamento cognitivo controlado se faz necessário, permitindo que a gente ajuste nossas estratégias e comportamentos a mudanças e demandas do ambiente.


Tarefas habituais não precisam do executivo

Podemos ilustrar o conceito de FEs com a seguinte analogia: numa empresa, o “executivo” é aquele que comanda e administra a organização. Ele é responsável pelo planejamento estratégico, tomada de decisões e execução de planos de ações. Assim como numa empresa, todos nós, ao longo do dia, lidamos com situações-problemas onde devemos agir de forma efetiva para alcançar os melhores resultados possíveis. Chamamos de funções executivas um conjunto de habilidades neuropsicológicas responsáveis pelas funções de planejamento e execução necessárias para resolução dessas tarefas.

O conceito de funções executivas pode ser descrito, portanto, como o conjunto de habilidades necessárias para o funcionamento de uma estrutura cognitiva apropriada para resolução de problemas com o objetivo de resolver uma tarefa. Consiste, assim, naquelas funções que permitem que uma pessoa engaje com sucesso em comportamentos intencionais e autodirigidos. O conceito não é, portanto, referente a um processo unitário. Ao contrário, é um conceito psicológico que inclui múltiplas habilidades cognitivas de alto nível inter-relacionadas.

Entretanto, como dito anteriormente, não é todo tipo de tarefa que requer a ativação das FEs!

Voltemos à nossa analogia da empresa. Para uma empresa “funcionar” é necessária a execução de uma infinidade de tarefas, da limpeza dos corredores do prédio a ações de marketing no mercado. Grande parte das tarefas realizadas numa empresa são atividades rotineiras e habituais que podem ser resolvidas sem a participação do executivo. Esse, por sua vez, só entra em ação quando grandes decisões, complexas e de alta responsabilidade, precisam ser tomadas, como por exemplo, definição de metas, estabelecimento de estratégias de marketing, compra e venda de ações, monitoramento do desempenho da empresa no mercado etc.

Nossas tarefas diárias podem ser comparadas com as atividades da empresa. Existem atividades ao longo do nosso dia que são habituais, ou seja, que fazem parte da nossa rotina e que já realizamos incontáveis vezes no passado, como, por exemplo, escovar os dentes, amarrar o cadarço, ir à padaria ou acender o forno. Há, por outro lado, aquelas tarefas que não são habituais, ou seja, que fogem da rotina. São situações novas que exigem planejamento, julgamento, tomada de decisão, atenção à execução das ações e avaliação dos resultados. Lembre-se, por exemplo, de quando você teve que viajar para uma cidade onde você nunca havia estado antes, ou mesmo quando precisou pegar um ônibus fora de seu trajeto habitual, ou ainda quando aprendia a dirigir automóveis ou quando resolveu uma equação na escola pela primeira vez. São situações “novas” como essas que exigem o recrutamento das FEs.

Em outras palavras, as FEs são requeridas quando novas informações precisam ser assimiladas e processadas, novas estratégias precisam ser formuladas e sequências apropriadas de ação precisam ser estabelecidas, otimizando nossa performance em situações-problema novas e complexas. As funções executivas são responsáveis por guiar, dirigir e administrar o pensamento, o comportamento e as emoções em situações novas de resolução de problema. São processos essenciais para o processamento de estímulos externos, estabelecimento de estratégias e metas, preparação para ação, e verificação de que esses planos e ações tem sido adequadamente implementados (feedback para regulação do comportamento e, se necessário, reformulação da estratégia).


A evolução do conceito de Funções Executivas

A origem do conceito pode ser situada há mais de 100 anos atrás nos esforços iniciais de neurocientistas para entender as funções do lobo frontal do cérebro, mais especificamente do chamado córtex pré-frontal. De forma menos rigorosa, ainda hoje a descrição da atividade do pré-frontal está intimamente ligada ao conceito de “cérebro executivo”. O psicólogo soviético Alexander Luria costuma ser lembrado por sua contribuição para o estudo das funções neurológicas. Ele identificou os lobos frontais como "o aparato essencial para organização da atividade intelectual como um todo, incluindo a coordenação de ações inteligentes e a avaliação de seus resultados".

Luria é referido por muitos autores como aquele que primeiro descreveu o que viria depois a ser chamado de funções executivas, embora ele próprio não tenha usado esse termo. Entretanto, o conceito de FEs se desenvolveu fora das investigações neurológicas, e, ao longo da história do conceito, muitas críticas foram feitas aos que tentaram definir as funções executivas como “funções do córtex pré-frontal”.

Foi com os psicólogos cognitivos que o conceito de FEs evoluiu. A partir da revolução cognitiva na segunda metade do século XX, diversos pesquisadores estavam engajados em investigar o funcionamento cognitivo humano em tarefas complexas. O estudo da função de memória era de particular interesse para esses pesquisadores, uma vez que para resolver qualquer tarefa cognitiva é necessário o “armazenamento” de informações, seja esse armazenamento de longo ou curto prazo. Na década de 60 e 70, diversos psicólogos cognitivos como Donald Broadbent, Richard Atkinson, Richard Shiffrin, Alan Baddeley, Karalyn Patterson e Graham Hitch apresentaram seus modelos teóricos acerca do funcionamento da memória. Embora alguns conceitos centrais no estudo da memória datem do século XIX, esses autores ajudaram a consolidá-los e a formular novos conceitos dentro de teorias sistemáticas que ainda hoje são fundamentais para qualquer interessado no estudo da função de memória.

Baddeley e Hitch escreveram em 1974:

Foi atribuído à memória de trabalho (ou memória de curto-prazo) um papel crucial no desempenho em uma ampla gama de tarefas incluindo a resolução de problemas, a compreensão da linguagem e, mais notavelmente, o aprendizado a longo prazo. Talvez a teoria mais convincente da importância central da memória de trabalho no processamento de informações seja o de Atkinson e Shiffrin, que atribuem à memória de trabalho o papel de um sistema executivo controlador responsável por coordenar e monitorar as muitas e complexas sub-rotinas de aquisição de novas informações e pela recuperação de antigas.

Foi, portanto, no estudo da memória que surgiu inicialmente a ideia de um sistema executivo, central executiva ou executivo central, um componente central no controle do processamento cognitivo durante a resolução de tarefas complexas.

Para esses autores, a memória de trabalho (ou de curto-prazo) não é apenas um lugar de armazenamento temporário de informação, mas sim um "espaço de trabalho". Toda e qualquer tarefa cognitiva humana envolve o processamento de informações, seja estas provenientes do ambiente ou da própria memória do indivíduo, e o lugar onde esse processamento ocorre é exatamente naquele espaço que os pesquisadores chamavam de memória de trabalho. A memória de trabalho passou, assim, a ser entendida não apenas como um armazenador temporário de informação, mas como um espaço ou sistema onde são mantidas e operadas informações durante a execução de tarefas cognitivas como, por exemplo, resolução de problemas, compreensão da linguagem, aprendizagem e toda forma de raciocínio.

O executivo central, de acordo com Baddeley, seria um componente “dentro” do sistema de memória de trabalho — o componente responsável pelo gerenciamento de operações com representações que ocorrem na memória
de trabalho. Anos depois, em 1998, rebatendo algumas críticas a sua teoria, Baddeley advertiu que a central executiva não é um orgão ou parte do cérebro, mas um conceito científico que envolve a interação de diferentes habilidades e áreas neurais responsáveis por organizar todas as rotinas de processamento cognitivo de informação.

O conceito de um executivo central, mais do que relacionado à função de armazenamento da memória, descrevia também a função de atenção como parte essencial do processamento cognitivo, uma vez que é o sistema atencional que nos permite focar em informações relevantes para determinada tarefas, alternar entre fontes de informações, atualizar informações e sustentar essas informações durante a resolução de tarefas e inibir aquelas informações irrelevantes no processo.

A interação entre os processos de memória e de atenção seria, portanto, o elemento determinante da capacidade cognitiva humana. Pesquisadores como Donald Norman e Timothy Shallice deram mais ênfase às funções atencionais do que à capacidade de armazenamento na memória ao estudarem o processamento cognitivo humano. O Sistema Atencional Supervisor descrito por estes autores contribuiu para o futuro refinamento conceitual das FEs.

A partir do estudo da memória, os psicólogos americanos Walter Schneider e Richard Shiffrin propuseram ainda na década de 70, um modelo de processamento de informação humano dividido em dois processos. Para resolvermos qualquer tarefa ao longo do nosso dia, precisamos “processar informações” para agir de forma efetiva. Segundo Schneider e Shiffrin, diferentes tarefas têm demandas diferentes, e, de acordo com a necessidade, esse processamento pode se dar de duas maneiras: uma automática e outra controlada.

O processamento automático é a ativação de uma sequencia já aprendida, armazenada na memória de longo-prazo, que é inicializada por inputs apropriados e então segue automaticamente, sem controle do sujeito, sem sobrecarregar a capacidade do sistema cognitivo e sem necessariamente demandar atenção.

Diferente do processamento automático, o processamento controlado é a ativação temporária de uma sequência de elementos que precisa ser mediada por um sistema de controle, que requer atenção e regulação e que têm capacidade de processamento limitada. O processamento controlado, seria, portanto, aquele que futuramente viria a ser descrito como mediado pelas FEs.

Dois tipos de processamento cognitivo na resolução de problemas - automático e controlado


Mas por que necessitamos de dois tipos de processamento cognitivo?

Como apresentado no início do texto, nosso cérebro evita gastar energia e tarefas habituais são resolvidas apenas repetindo padrões automáticos gravados em nossa memória, sem o recrutamento de habilidades cognitivas complexas. Mas quando nos deparamos com problemas novos e complexos, o processamento cognitivo automático não dá conta de solucionar o problema.

O processamento controlado é o processamento de mais alto nível que nos ajuda a resolver tarefas complexas, porém seu funcionamento é um tanto mais lento e tem um custo energético maior, uma vez que demanda a ativação conjunta de diversos componentes cognitivos para otimizar o desempenho na resolução de tarefas. Seria inviável, biologicamente falando, que a rede neural de processamento cognitivo controlado estivesse ativada o tempo todo. Portanto, apenas em situações novas e complexas, o processamento controlado é ativado recrutando as funções cognitivas de alto nível. Mas, à medida que a situação se torna familiar e rotineira, sempre demandando a mesma sequência de operações, o processamento automático evolui, e a demanda cognitiva será aliviada, diminuindo os custos energéticos do processo.

Assim, o modelo de dois-processos, um controlado e outro automático, permite o organismo fazer uso eficiente da capacidade limitada do sistema de processamento cognitivo. O sistema de processamento automático permite que o sistema controlado esteja livre para novas tarefas, em situações para as quais operações automáticas ainda não foram desenvolvidas.

Voltando a analogia apresentada no início do texto, podemos dizer que o executivo só entra em cena para resolver tarefas complexas que demanda um processo controlado, enquanto atividades rotineiras podem ser resolvidas de forma automática — imagine como um executivo de uma empresa ficaria sobrecarregado se tivesse que resolver todas as tarefas habituais de uma empresa como atender telefonemas, fazer o cafezinho, descartar resíduos etc.

A ideia de um processamento controlado na resolução de tarefas novas e complexas e a ideia de um componente executivo central dentro desse processamento, que comanda e gerencia o funcionamento cognitivo de maneira coordenada, agregou uma visão centralizada dos processos cognitivos complexos que abriu caminho para o conceito de funções executivas.

O termo funções executivas, como tem sido hoje empregado, foi introduzido pelo neuropsicólogo americano Muriel D. Lezak em 1982. Para ele, FEs dizem respeito às habilidades de formular metas, planejar e executar planos de maneira eficaz, que são essenciais para comportamentos autônomos, criativos e socialmente construtivos. A conceitualização oferecida por Lezak foi determinante para a popularização do termo. De acordo com o autor, o comprometimento ou a perda dessas funções comprometeria a capacidade de uma pessoa de manter uma vida independente, construtiva e produtiva, independentemente de quão bem ela possa ver e ouvir, andar e falar e realizar tarefas.

Lezak não estava restrito ao estudo da memória. Seu conceito de FEs era bem mais amplo englobando o conjunto de funções cognitivas, e sua descrição dos componentes executivos dizia respeito mais às etapas de resolução de uma tarefa do que aos elementos estruturais dentro de um sistema cognitivo. Assim, seu modelo apresentava quatro categorias de habilidades executivas: (1) habilidades necessárias para formular metas, (2) habilidades envolvidas no planejamento de estratégias, (3) habilidades de colocar essas estratégias em prática, (4) habilidades necessárias para ter sucesso na resolução de tarefas (monitorar os resultados e corrigir se necessário).

Nas últimas décadas, a partir do modelo apresentado por Lezak, uma variedade de definições foram propostas, mas em geral, o conceito de FEs tem sido entendido como um constructo dentro do nível de análise psicológico, sem referência obrigatória à circuitaria neurológica envolvido.

Uma questão central no debate é, sendo as FEs entendidas como um “conjunto de habilidades”, quais são essas habilidades que devem ser incluídas dentro dessa categoria? Ao longo dos anos, diferentes modelos com respostas variadas para essa questão foram propostos. Revisões de literatura apontam que mais de 30 diferentes definições já foram propostas para o conceito.

Em anos recentes, dentre diversas definições apresentadas, a do psicólogo Akira Miyake e colegas tem tido grande aceitação pelo público. Miyake revisou os estudos da área e descreveu as três habilidades mais comumente postuladas na literatura como essenciais para o processamento cognitivo controlado: shifting (flexibilidade ou alternância), updating (atualização) e inhibition (inibição).

Shifting, que pode ser entendido como flexibilidade cognitiva, é a habilidade de alternar entre diferentes operações ou estados mentais. Também é referida como “atenção alternada”, a capacidade de manter o foco nas informações úteis para a resolução de uma tarefa, alternando esse foco entre diferentes informações quando necessário, ou ainda alternar entre diferentes estratégias para resolução de uma tarefa.

Updating, ou atualização, diz respeito à manutenção e monitoramente de representações mentais durante uma atividade. A habilidade está intimamente ligada à noção de “memória de trabalho” (assim como nos estudos iniciais da década de 70). Processos de atualização requer a revisão dos itens armazenados na memória de curto-prazo, substituindo informações antigas, que não são mais relevantes, por informações mais recentes e relevantes para resolução daquela tarefa. Para os pesquisadores, updating é mais do que simplesmente manter informações relevantes na memória, mas sim "manipular ativamente informações relevantes", ao invés de armazená-las passivamente.

Inhibition (inibição, no português) diz respeito a habilidade de intencionalmente inibir respostas automáticas e dominantes quando necessário. Pode ser mais claramente entendida como a habilidade de "auto-controle".

Mais recentemente, outra descrição das FEs amplamente divulgada foi aquela apresentada pela neurocientista cognitiva Adele Diamond. A descrição de Diamond, de 2013, é bastante similar a apresentada por Miyake e colegas, diferindo principalmente nos nomes usados para se referir às habilidades. Ela mantém o termo inibição (ou controle inibitório), mas prefere o termo “memória operacional (ou de trabalho)” no lugar de updating, e “flexibilidade cognitiva” ao invés de shifiting.

Para Diamond, essas FEs principais são a base para funções executivas de ordem superior, que são: o raciocínio, o planejamento e a resolução de problemas.

Diferente do modelo apresentado inicialmente por Lezak, a literatura contemporânea sobre FEs focam mais nas habilidades cognitivas em si do que nas etapas para resolução de tarefas.

Hoje, ainda não há consenso na definição do conceito. E, se o termo sequer foi claramente definido, outras questões são ainda mais confusas, e estão longe de alcançar respostas precisas: “como se desenvolvem ?”, “como avaliar as funções executivas?”, “é possível treiná-las?”, “qual impacto no sucesso acadêmico ou profissional das pessoas?”. Embora ainda não haja consenso, pesquisadores da área têm formulado descrições cada vez mais próximas sobre o que são as funções executivas, e respostas para essas questões vêm se tornando mais fáceis de serem investigadas.

  
A importância das Funções Executivas

As FEs estão no coração de toda atividade humana inteligente, socialmente relevante, construtiva e criativa, e são responsáveis pelos desempenhos de mais alto nível de nossa espécie, incluindo aprendizagem escolar e sucesso acadêmico, regulação emocional, autocontrole e interação social. Como descrito no início do texto, é graças às FEs que nós humanos nos tornamos quem somos, pois elas nos permitem agir com estratégias flexíveis ao invés de simplesmente reagir por impulsos e instintos.

Fazer uso das FEs gasta muita energia. Mas as FEs são um mecanismo funcional que tem um propósito evolutivo: esse custo é compensado pelo sucesso da nossa espécie em resolver problemas, se adaptar a mudanças do ambiente, ajustar nosso comportamento e sobreviver!


Ao longo de décadas de pesquisa, pesquisadores têm mostrado que pessoas com disfunções ou pobres funções executivas são caracterizadas por apresentar impulsividade, incapacidade de focar ou manter a atenção em tarefas penosas, reduzida memória de trabalho, dificuldade em monitorar e regular o comportamento, são desorganizadas, têm dificuldade em produzir e implementar ou alternar estratégias e falham em aprender com os erros.

Falhas nas FEs também estão associadas a prejuízos no comportamento moral — isso porque esses pacientes ignoram as regras e convenções sociais e têm dificuldade para avaliar as consequências de suas ações. Como resultado, esses pacientes apresentam pobres habilidades sociais e experienciam dificuldades em manter relacionamentos sociais saudáveis. Em um contexto cultural, esses comportamentos podem ser considerados desviantes. Estas características de dificuldade de aprendizagem e de comportamento desviante podem estar presentes em indivíduos com diferentes transtornos — como, por exemplo, TDAH, TOD, Deficiência Intelectual e TEA — ou em pacientes que sofreram alguma lesão neurológica.

Nos últimos anos, parte da pesquisa em FEs tem se orientado para a investigação de como essas habilidades se desenvolvem na infância e como podemos intervir para compensar ou estimular essas habilidades em contexto clínico ou escolar. A partir dessas pesquisas, programas educacionais e de reabilitação têm sido desenvolvidos com o objetivo de recuperar ou prevenir prejuízos no desempenho escolar, social e profissional.


Para saber mais:

ATKINSON, R. C., e SHIFFRIN, R. M. (1971). The control of short-term memory. Scientific American, 225(2), 82-90.
BADDELEY, A. e HITCH, G. (1974). Working Memory. Psychology of Learning and Motivation, 8, 47-89.
BADDELEY, A. (1998) The central executive: A concept and some misconceptions. Journal of the International Neuropsychological Society, vol 4, pp. 523 – 526.
DIAMOND, A. (2013). Executive Functions. Annual Review of Psychology, 64, 135–168.
JURADO, M.B. e ROSSELLI M (2007). The elusive nature of executive functions: a review of our current understanding. Neuropsychological Review, 17(3):213-33.
LEZAK, M. (1982). The Problem of Assessing Executive Functions. International Journal of Psychology, 17:1-4, 281-297
MIYAKE, A et al. (2000). The unity and diversity of executive functions and their contributions to complex frontal lobe tasks: a latent variable analysis. Cognitive Psychology, 41, 1, pp. 49-100.
OLIVEIRA, R. M. (2007). O conceito de executivo central e suas origens. Psicologia: Teoria e Pesquisa23(4), 399-406. 
SCHNEIDER, W. e SHIFFRIN, R. (1977) Controlled and Automatic Human Information Processing: I. Detection, Search, and Attention. Psychological Review, 84(1), 1-66.
UEHARA, E. et al. (2013). Funções executivas: um retrato integrativo dos principais modelos e teorias desse conceitoNeuropsicologia Latinoamericana5(3), 25-37.