"Meu filho não volta para escola e ponto final!" ─ Pandemia e a Síndrome do filho vulnerável

Por Eduardo de Rezende
02 de julho de 2020

Menina com máscara coronavírus

Se nos últimos meses o debate de ter ou não ter aula online estava dividindo pais, a ideia de voltar às aulas presenciais tem quase um consenso: "meu filho não volta!"

Embora durante a pandemia diversas questões pareceram dividir a sociedade, essa divergência não parece se refletir quando se trata do retorno dos filhos à escola. A maioria expressiva dos pais têm dito não.


A justificativa é clara. Eles se sentem inseguros, desconfiados, denunciam que a escola não oferecerá condições mínimas de segurança. Além disso, controlar o comportamento de crianças pequenas ─ como usar máscaras, manter o distanciamento social necessário e higienizar as mãos ─ será um desafio e tanto.

A gente sabe que o maior risco da circulação de crianças na verdade é para os próprios adultos. As crianças raramente desenvolvem formas graves da COVID, mas são potenciais transmissoras do vírus, principalmente porque, por serem dependentes, estão em contato direto com adultos e, como assintomáticas, passam despercebidas quando estão contaminadas.

Entretanto, o adoecimento próprio não parece ser o maior medo dos pais. A preocupação é mesmo com a saúde da criança: “a vida deles para mim é o mais importante!” disse uma mãe.

O medo e a percepção dos pais de que os filhos estão vulneráveis à doença, ou mesmo à morte, tem sido estudada há anos na psicologia. Essa percepção de vulnerabilidade pode levar a preocupações exageradas e levar os pais a se comportarem de forma também exagerada e até a prejudicar o desenvolvimento das crianças (por exemplo, limitando possibilidades de interação com o mundo e experiências sociais). É o que chamamos no senso comum de superproteção.

Ansiedade e preocupações contínuas dos pais em relação a saúde dos filhos caracterizam o que alguns pesquisadores chamam de "síndrome do filho vulnerável", descrito pela primeira vez pelos médicos Morris Green e Albert J. Solnit em 1964. A síndrome é caracterizada pela crença exagerada dos pais de que um filho está eminentemente vulnerável ou suscetível a riscos como doença ou morte.


Não é superproteção, mas sim precaução e cuidado

Seríamos tolos e simplistas se acreditássemos que em meio a uma pandemia os pais estão sendo exagerados em se preocupar com os filhos. Não sou eu quem vai dizer que os pais estão exagerando.

Pelo contrário: essa preocupação atual dos pais com os filhos faz todo sentido! E isso não é superproteção.

A superproteção, caracterizada por ansiedade excessiva, é só o extremo de um grande espectro de preocupação dos pais com os filhos. O que temos visto os pais expressarem nos últimos dias parece estar mais na outra ponta: é precaução.

Cuidados protetivos são comportamentos com raízes na evolução humana, ou seja, fazem parte da nossa biologia. Afinal, na natureza é uma questão de sobrevivência da espécie que as crianças sejam cuidadas. Pesquisas mostram que muitas situações de risco podem aumentar a sensibilidade dos pais à percepção de vulnerabilidade dos filhos. É como se os pais tivessem um alarme biológico, alertando de potenciais riscos à segurança dos filhos.

"Nós humanos desenvolvemos uma rica psicologia preventiva que nos auxilia na formidável tarefa de proteger nossos filhos", dizem os pesquisadores (Hahn-Holbrook et al., 2011).

Mesmo em países desenvolvidos, onde a propagação do vírus está bem controlada e onde as escolas parecem oferecer boas condições de receber as crianças, os pais não se sentem confiantes em retornar os filhos para as escolas. A situação é ainda mais assustadora quando chegam notícias de que na reabertura de escolas em diversos países como França, Israel e Coréia do Sul, eles tiveram que voltar atrás e fechar novamente as escolas após aumento de número de casos positivos dentro da comunidade escolar.

Nossa situação de enfrentamento ao coronavírus tem sido caracterizada por incertezas e grandes ameaças que perturbam ainda mais nosso sistema de alerta biológico.

A percepção de vulnerabilidade no Brasil é ainda mais grave. O “não” dos pais é o reconhecimento de que as coisas não estão dando certo por aqui e uma denúncia de que a escola não parece um lugar seguro para a saúde das crianças. Salas pequenas e cheias, sem circulação de ar, falta de água, sabão e papel toalha estão entre as reclamações mais frequentes dos pais.

De fato, as escolas são potenciais focos de disseminação de várias doenças contagiosas: conjuntivite, catapora, sarampo, piolho etc. Os pais sabem que mesmo para essas doenças menos nocivas, as escolas nem sempre tem êxito no seu enfrentamento.

País afora, estados, municípios e até o ministério da educação já apresentam planos de retomada das aulas presenciais. Mas os pais batem o pé e alguns já decidiram: "esse ano meu filho não volta pra escola". Muitos pais sugerem até mesmo a suspensão definitiva do ano letivo.

"Escola se recupera, saúde não", dizem eles.

Temos uma solução para isso? Não! O debate está aberto e vai se arrastar por bastante tempo ao longo do ano.

A única certeza que temos é que os pais precisam ser ouvidos. Afinal, é o alarme biológico deles que está apitando: "meu filho está em perigo!"



Compartilhar no WhatsApp


Compartilhar no Facebook



Referências:

Green, M., & Solnit, A. J. (1964). Reactions to the threatened loss of a child: a vulnerable child syndrome. Pediatrics, 34, 58-66.

Thomasgard, M. (1998). Parental Perceptions of Child Vulnerability, Over-protection, and Parental Psychological Characteristics. Child Psychiatry and Human Development, 28(4), 223–240.

Hahn-Holbrook, J., Holbrook, C., & Haselton, M. G. (2011). Parental precaution: Neurobiological means and adaptive ends. Neuroscience & Biobehavioral Reviews, 35(4), 1052–1066.

Woody, E. Z., & Szechtman, H. (2011). Adaptation to potential threat: The evolution, neurobiology, and psychopathology of the security motivation system. Neuroscience & Biobehavioral Reviews, 35(4), 1019–1033.